Sábado, 2 de Junho de 2012

[Antevisão] Tudo a trabalhar, vem aí o Boss!


É, a par de Stevie Wonder e Radiohead, o grande acontecimento do ano, no que a espectáculos ao vivo diz respeito. Bruce Springsteen regressa a Portugal, 19 anos depois da última vez, em Alvalade, no entretanto demolido estádio do Sporting Clube de Portugal. Nessa altura, o Boss trazia na bagagem dois discos menores, Human Touch e Lucky Town, discos que versavam sobre o amor, dois dos trabalhos menos interessantes, claros pontos baixos numa carreira quase impoluta.

Agora, quase duas décadas mais velho, Springsteen regressa com a E Street Band, mas sem Clarence Simmons. É a única falha a apontar. Até porque, ao longo da última década fez-nos a favor de voltar à grande forma - Working on a Dream (2009) é, por exemplo, material de primeira água, grande trabalho que nos faz acreditar que ainda restam alguns anos de criatividade ao grande herói americano.

Ao longo de uma carreira de mais de 30 anos, Springsteen provou que não era nenhum Dylan wannabe, inspirou nomes gigantes como David Bowie, Manfred Mann, os Kiss, os Portishead, os Cowboy Junkies e os Rage Against the Machine - só para citar meia-dúzia. Gerou descendência: os magníficos Hold Steady, os Gaslight Anthem e, por cá, mais recentemente, os Lacraus - que tocam neste mesmo dia, no Palco Vodafone.

Um dos grandes feitos do Boss foi o de colocar constantemente a questão: "Quão longe está o seu povo do sonho americano?" e, ainda assim, ser um ícone dessa mesma procura constante pela terra das oportunidades - ou não fosse ele uma instituição do rock, da América, dessa terra, desse sonho prometido, mas nem sempre concretizado. O Vietname, o Iraque, o Afeganistão, Guantánamo, George W. Bush, o homem de "Born in the U.S.A." esteve lá, sempre, pronto a colocar o dedo na ferida.

Temos para nós que Born to Run é a obra-prima, um dos melhores discos rock que alguma vez viu a luz do dia, mas também importa destacar Darkness on the Edge of Town, a folk de Nebraska, a ambição de The River e mesmo a alegria, o entusiasmo de Working on a Dream, talvez o disco mais feliz do homem. 

O que vamos ter no Rock in Rio? O Bruce do rock, da folk, do blues, o contador de histórias, o patriota, o apaixonado, o desencantado, o encantado, o interventivo, o cool, o homem que, no fundo, podia ser qualquer outro cidadão norte-americano, não fosse o seu enorme talento para contar histórias. História, meus caros, história vai fazer-se no dia 3 de Junho, naquele palco a que chamam Mundo.

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Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Pano do Pó #12

A performance de uma orquestra está sempre associada a uma certa solenidade, da mesma forma que o comum dos mortais se transfigura, oito horas por dia, numa outra espécie, mais institucionalizada, mais politizada, mais chapa cinco, menos pessoal, menos pessoa. Felizmente, sempre que uma regra é estabelecida, é certo que alguém a vai quebrar (abençoadas e iluminadas criaturas). Case in point: Jimmie Lunceford e a sua orquestra dançante. E sapateado. E o Diabo em palco. Não exactamente por esta ordem.

Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

No apartamento de Cícero


[Este é um excerto do artigo publicado originalmente na revista Obvious. Para lê-lo na íntegra, é clicar aqui]

Não nasceu a.C. na Roma Antiga, mas também ele se dá ao direito de filosofar sobre o amor, a solidão e a tristeza no longa-duração "Canções de Apartamento", aclamado pela crítica e pelo público desde o seu lançamento em 2011. No seu cantinho no mundo, Cícero recebe-nos de braços abertos.

Podem compará-lo a Marcelo Camelo, a incontornáveis figuras da MPB como Chico Buarque e, até, ao rock melancólico dos Radiohead. Mas as lembranças e saudades que fazem de Cícero o músico que é são pessoais e intransmissíveis. São ecos dessas memórias que ouvimos ao longo das dez faixas que compõem este primeiro disco do brasileiro.

Tudo foi composto, gravado e editado em casa. O que daí resultou foi uma "sessão de análise". Depois disso, Cícero "só esperava ser ouvido". O público e a crítica especializada reagiram calorosamente e o disco reclamou o seu lugar em muitas das listas de favoritos de 2011. Um dos destaques é a canção de abertura, um número onde brilha o romantismo do acordeon e do metalofone, rasgado pela cada vez maior distorção da guitarra.

É um universo de canções simples - mas não simplistas, porque a alma está em permanente conflito e "Canções de Apartamento" é um retrato disso. "Mas tudo bem, o dia vai raiar p'rá gente se inventar de novo".

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Pano do Pó #11

Em 1963, era a televisão que procurava os músicos e não o contrário. Também nessa altura, a mulher tinha um lugar privilegiado entre tachos, panelas e - perdoem-nos a gracinha - espanadores. Nos dias que correm, uma rapariga não tem que ser prendada, mas cai bem que use o seu batom vermelho (alô, Mallu Magalhães) e agarre numa guitarra com toda a convicção, compensando aquilo que lhe falta em profundidade emocional e musical. Se for possível fazê-lo em grupo, tanto melhor - este "girl power" do século XXI é frouxo; fica-se por fazer o que se quer e dormir com quem apetece (sim, esta também é uma referência a outra Miúda).

Longa introdução esta, para um post que tem uma moral simples: John Coltrane tocava saxofone porque não podia fazer outra coisa. Não era estilo, não era charme, não era hobbie. Era uma condição para a sobrevivência.



Este vídeo é um excerto de um dos episódios da série Jazz Casual, transmitida pela NET, actualmente conhecida como PBS.

Domingo, 20 de Maio de 2012

[Playlist] Big K.R.I.T. - Yeah Dats Me


Um doce para quem acertar no número de vezes que Big K.R.I.T. repete "Yeah Dats Me" ao longo desta entusiasmante canção chamada... "Yeah Dats Me".

Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Pano do Pó #10

Podia ser nome de motel, podia ser nome de cocktail. Neste caso, é o nome da canção orquestrada por Duke Ellington e interpretada por Herb Jeffries, qual bóia de salvação para a nossa sanidade mental. Soa a tardes de verão aparentemente intermináveis, a cenários idílicos que provavelmente nunca vamos conseguir tornar realidade. Talvez um dia, com o pé à beira de uma piscina de motel. E um cocktail.

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

[Reportagem] Eleanor Friedberger - Galeria Zé dos Bois - 14 de Maio


É interessante verificar que alguns dos outsiders do Vodafone Mexefest Lisboa 2011 regressam, meio ano depois, a Lisboa. Em Dezembro, Eleanor Friedberger deu um óptimo concerto na Casa do Alentejo e Josh T. Pearson idem aspas na Sociedade de Geografia de Lisboa. Agora, na Galeria Zé dos Bois, é óptimo rever Friedberger sem condicionamentos.

O álbum a solo, o único, “Last Summer”, é um discão, um discão que se afasta radicalmente da sonoridade cheia de exploração dos Fiery Furnaces, a sua banda de sempre partilhada com Matthew Friedberger. Essa foi sempre a nossa dificuldade relativamente aos Fiery Furnaces, a maravilhosa possibilidade de nunca os podermos categorizar. E é aqui que entra Eleanor, uma aparada franja indie para os descrentes do género – descrença essa que é legítima, vivemos tempos em que, na cena rock, toda a gente soa a toda a gente. E a verdade é que a norte-americana poderia facilmente cair nessa esparrela.

Mas não, mesmo sem os instrumentos de sopro e alguma percussão presente em disco, esta é música de primeira água – sexy, vertiginosa, imprevisível, bonita. O espectáculo passa pelas canções desse discão de estreia, mas Eleanor também apresenta alguns inéditos. Nos últimos tempos fomos percebendo que as mulheres não têm pejo em pegar na guitarra e criar magníficas canções – St. Vincent, Cate Le Bon. Mas Eleanor é uma outra coisa, é Patti Smith, é Neil Young, é o que quiser quando quiser.

Uma coisa é certa, se algum dia esta miúda achar que falhou a solo, não poderá regressar para a sua ex-banda e pensar que pode voltar a abraçar o sucesso mainstream – simplesmente porque nunca o teve. Estamos descansados.